Investimentos e Parcerias para a Revitalização da Pequena África
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Prefeitura do Rio de Janeiro anunciaram avanços significativos no desenvolvimento do Distrito Cultural Pequena África. A iniciativa, que conta com investimentos iniciais da ordem de R$ 23 milhões captados entre recursos públicos e privados, inclui a requalificação da Praça dos Estivadores e a implementação de importantes equipamentos culturais como o Conservatório da Música Preta Brasileira, a Biblioteca Machado de Assis e a Fábrica. Esses projetos integram a Iniciativa Valongo, um amplo programa de requalificação coordenado pelo BNDES com suporte técnico do Consórcio Valongo Patrimônio Vivo.
O prefeito Eduardo Cavaliere destacou o papel do Distrito Cultural como um espaço que une memória e futuro, ressaltando que o projeto transcende uma simples prioridade governamental para se tornar essencial na construção do futuro cultural do Rio de Janeiro e do Brasil. O anúncio foi feito no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), localizado na Gamboa, um dos bairros centrais do território.
Requalificação Urbana e Valorização Cultural
A Prefeitura do Rio investirá R$ 2 milhões na revitalização completa da Praça dos Estivadores, transformando o local em um ambiente acolhedor para moradores, trabalhadores e visitantes. O projeto prevê a criação de canteiros ajardinados, instalação de bancos e estruturas de sombra que ampliem as áreas de permanência, além da melhoria da iluminação para garantir segurança e incentivar o uso noturno. A prioridade será dada aos pedestres, promovendo conexões mais amigáveis com o entorno.
Além da requalificação física, a praça ganhará um sistema de interpretação territorial com dois totens informativos: um apresentará um mapa com equipamentos, percursos e pontos de interesse do Distrito Cultural, enquanto o outro contará a história da praça, dos estivadores e da formação afro-brasileira da região. Essa proposta nasceu das demandas identificadas durante etapas de escuta com moradores e agentes culturais locais, que pediram mais espaços para atividades culturais, educativas e a valorização da memória afro-brasileira.
Equipamentos que Fortalecem a Identidade Local
O BNDES firmou acordos para a criação de equipamentos que reforçam a identidade cultural da Pequena África. A Fundação Biblioteca Nacional receberá recursos para requalificar um imóvel destinado à Biblioteca Machado de Assis, que terá acervo, auditório, sala de exposições e um terraço com jardim e café, com investimento previsto de R$ 8 milhões. O espaço será dedicado à valorização da literatura afro-brasileira e da memória oral.
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Fonte: decaruaru.com.br
Outro investimento de R$ 8 milhões prevê a construção do Conservatório da Música Preta Brasileira, resultado da parceria entre BNDES e Instituto Cultne. Localizado na região do Largo da Prainha, em terreno cedido pela Prefeitura, o conservatório terá funções de formação, ensaios, produção e registro musical, atuando como um centro vivo da cultura negra e suas manifestações artísticas.
A Fábrica, por sua vez, será um espaço de apoio à produção cultural e geração de renda, com atenção à economia solidária negra e produtos afrocentrados. Com investimento previsto de R$ 5 milhões, o local oferecerá capacitação, apoio técnico e comercialização para produtores e empreendedores locais, fortalecendo negócios ligados à identidade cultural do território. Esse projeto será realizado por meio de acordo entre o BNDES e a Fundação Darcy Vargas.
Construção Coletiva e Resgate da Memória Afro-brasileira
A diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campello, ressaltou que o projeto vai além da recuperação física, envolvendo a preservação da memória e do patrimônio imaterial da região. Ela destacou a importância da escuta e da construção coletiva para garantir que o Distrito Cultural Pequena África represente a resistência e a riqueza cultural do lugar.
O projeto foi estruturado a partir de um processo contínuo de diálogo com moradores, pesquisadores, gestores culturais e instituições locais, incorporando estudos, concursos de ideias e visitas técnicas a experiências semelhantes em outras cidades, como Salvador e São Paulo. O objetivo é assegurar que o planejamento esteja alinhado às dinâmicas reais do território e respeite a presença negra que moldou a região.
Contexto Histórico e Relevância Cultural
A Pequena África é um território fundamental para a compreensão da história afro-brasileira e do Rio de Janeiro. Reconhecido internacionalmente, o Cais do Valongo, patrimônio mundial da Unesco, foi o maior porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Estima-se que entre 800 mil e 1 milhão de pessoas passaram pelo local entre 1774 e 1831.
Além da memória da escravidão, a região é marcada pela resistência negra, pela religiosidade, pelo trabalho e pelas manifestações culturais que ajudaram a formar a identidade do Rio. Locais como Pedra do Sal, Casa Tia Ciata, Afoxé Filhos de Gandhi e Instituto dos Pretos Novos são símbolos vivos dessa trajetória, que deu origem a expressões culturais como o samba e o Carnaval.
O projeto do Distrito Cultural Pequena África reconhece essa riqueza e busca preservar não apenas edifícios e sítios arqueológicos, mas a paisagem cultural formada por pessoas, instituições e práticas que ainda produzem significado. A requalificação da Praça dos Estivadores reflete essa abordagem, equilibrando o uso cotidiano do espaço com a valorização das camadas históricas presentes.
Perspectivas e Desafios para o Futuro
Mais do que obras, o Distrito Cultural propõe uma visão integrada que abrange patrimônio, ambiente e desenvolvimento socioeconômico. As diretrizes incluem a preservação da memória, qualificação urbana, mobilidade, resiliência ambiental e fortalecimento da economia local. Propostas para qualificação de ruas, praças e percursos, além de iniciativas para habitação social, estão entre as possibilidades a serem debatidas com a comunidade e autoridades.
A Praça dos Estivadores representa o primeiro passo concreto desse processo, trazendo ao espaço público uma parte da visão construída coletivamente para a Pequena África. O projeto abre caminho para futuras intervenções que manterão viva a história, a cultura e a identidade de um dos territórios mais significativos da memória afro-brasileira no Brasil e no mundo.

