A Resposta Criativa de Catarina DeeJah
Em Olinda, Pernambuco, a artista e ativista Catarina DeeJah tem se destacado por seu trabalho que une arte e crítica social. Conhecida por suas bandeirolas coloridas e sua poderosa presença em redes sociais, DeeJah lançou em janeiro o projeto “Bet, a feia”, que rapidamente chamou a atenção, mas também gerou uma reação inesperada da empresa de apostas Esportes da Sorte.
A campanha surgiu em resposta à quantidade de lixo deixada pela empresa durante o carnaval do ano anterior, evento que ela critica por seu impacto ambiental. Ao usar uma identidade visual que remete a Esportes da Sorte e à telenovela “Betty, a feia”, a artista buscou trazer à tona questões sobre responsabilidade social e ambiental. “Despejaram nas ruas toneladas de brindes de poliéster, que não são biodegradáveis”, declarou DeeJah, referindo-se ao impacto da campanha da empresa na cidade.
No entanto, em 23 de janeiro, a artista recebeu uma notificação extrajudicial solicitando a remoção das referências à marca, argumentando que seu trabalho infringia direitos autorais. Surpresa com a ação, DeeJah acredita que a sátira faz parte do espírito carnavalesco e da liberdade de expressão. “Acho que essa coisa da ‘Bet, a feia’ tem tudo a ver com o espírito de carnaval, de brincadeira, de paródia, de sátira”, declarou no Instagram.
O Custo da Sátira e a Reação da Indústria
Esta não foi a primeira vez que a artista teve um desentendimento com a Esportes da Sorte. Após as postagens críticas sobre o lixo deixado pela empresa, ela recebeu uma mensagem de um representante que tentou convencê-la a retirar as publicações e até a colaborar com a criação da identidade visual para o carnaval seguinte. “Ele me perguntou quanto eu queria para fazer a identidade visual do ano que vem, queria me comprar”, explicou DeeJah, que se viu em uma situação entre a censura e a comercialização de sua arte.
O advogado e especialista em propriedade intelectual, Flávio Pougy, analisou a situação e sustentou que o trabalho de DeeJah pode ser visto como uma crítica legítima e não uma infração de marca. “É uma obra crítica, além de estar respaldada por um fato verdadeiro. O trabalho tem um caráter de denúncia também”, comentou.
Campanha e Preocupações com o Patrimônio Cultural
Após a notificação, DeeJah adaptou o projeto, criando uma nova tipografia e lançando o manifesto “Desbanque a banca”, que expõe suas preocupações sobre o impacto das apostas na sociedade. A artista enfatiza que os problemas relacionados ao vício em jogos têm atingido muitas famílias. “As bets são hoje uma questão de saúde pública, os auxílios-doença por vício em jogos aumentaram 2.300% no Brasil entre 2023 e 2025, segundo dados do INSS”, destacou.
Além de suas preocupações pessoais, DeeJah também expressa um descontentamento maior sobre como o carnaval de Olinda está sendo manejado. A artista critica a exploração comercial da cultura local e argumenta que o turismo predatório e a especulação imobiliária estão ameaçando a integridade da cidade histórica. “A atual prefeita não entende a preservação da história da cultura, eles veem isso como uma forma de ganhar dinheiro”, lamenta.
O Legado do Carnaval e as Mudanças Necessárias
O carnaval de Olinda, que tradicionalmente envolvia a comunidade na decoração e celebração, agora é visto por DeeJah como um evento dominado por grandes marcas, como a Esportes da Sorte, que também é patrocinadora do desfile do icônico Homem da Meia-Noite. “Isso está se perdendo”, disse, referindo-se à essência comunitária que caracterizava a festividade.
A pesquisa sobre a preservação cultural, realizada por pesquisadores da Fundação Joaquim Nabuco, aponta que a participação de empresas em eventos culturais não é nova, mas a magnitude atual é preocupante. “As bets entraram em um jogo que já vinha sendo feito e dominaram o cenário”, afirmou Rodrigo Cantarelli, ressaltando a necessidade de um debate sobre a presença de tais empresas em festividades tradicionais.
DeeJah, que continua a lutar por sua arte e suas convicções, enfrenta agora este desafio sozinha, mas determinada a levar sua mensagem às ruas. Com uma resistência singular e a paixão pela cultura local, ela se recusa a deixar que o poder corporativo silencie sua voz.

