Desfile da Acadêmicos de Niterói e Polêmica nas Eleições
O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que estreará no Grupo Especial da Marquês de Sapucaí, promete ser um dos momentos mais controversos do Carnaval carioca. A homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um ano eleitoral, desencadeou debates acalorados sobre polarização política, utilização de espaços culturais para propósitos políticos e os limites da legislação eleitoral. Especialmente considerando que, na semana passada, o governo federal formalizou um aporte financeiro de R$ 12 milhões para as 12 principais escolas de samba do Rio de Janeiro. Cada agremiação receberá R$ 1 milhão, um investimento justificado como um reforço ao turismo durante os festejos. Essa iniciativa foi recebida com entusiasmo por representantes do setor, que veem a verba como essencial para a realização do evento.
A Acadêmicos de Niterói apresentará o enredo ‘Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil’. A escola abrirá os desfiles do Grupo Especial no dia 15 de fevereiro. A escolha do tema ocorreu em julho de 2024 e o samba-enredo foi revelado em setembro do mesmo ano. Na sua apresentação, a agremiação classifica Lula como ‘o político mais bem-sucedido de seu tempo’, ressaltando sua trajetória como ex-operário e líder sindical que governou o Brasil por três mandatos.
Repercussões e Críticas ao Enredo
Embora a tributo a uma figura pública não seja, por si só, considerado propaganda eleitoral antecipada, especialistas alertam que determinados elementos do samba e o conteúdo de vídeos divulgados pelo PT podem ser interpretados como tal. A escolha de um enredo que presta homenagem a Lula coloca a Acadêmicos de Niterói no centro de uma controvérsia: enquanto é tradicional no Carnaval homenagear personalidades, a junção de uma homenagem política com financiamento público levanta questões sobre abuso de poder econômico e promoção eleitoral com recursos públicos. Lula, por sua vez, afirmou estar organizando sua agenda para comparecer ao evento, mas sua presença ainda não está confirmada, o que, segundo analistas, poderá intensificar a repercussão política do desfile.
O cientista político Alexandre Bandeira comentou que ‘a política não tirará folga, nem durante o reinado de Momo’, referindo-se à figura central do Carnaval. Ele observa que, na prática, as sanções tendem a recair mais sobre a escola do que sobre o candidato, a menos que se prove um vínculo direto. Bandeira recorda um caso anterior em que ações de campanha antecipada resultaram em multas, como um episódio relacionado a anúncios de sucessão presidencial que gerou sanções de R$ 50 mil. As questões sobre abuso de poder político e econômico são frequentemente analisadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pela Justiça Eleitoral local.
Financiamento Público e Suas Implicações
Outro aspecto que gera apreensão entre especialistas é a alocação de recursos públicos para a escola. A Acadêmicos de Niterói recebeu R$ 1 milhão do Ministério da Cultura e da Embratur, além de R$ 4 milhões da Prefeitura de Niterói e R$ 2,15 milhões da Prefeitura do Rio. Embora essas transferências sejam institucionais e equivalentes às destinadas a outras agremiações, elas podem ser utilizadas como argumento em futuras ações contra Lula ou o PT, sob a alegação de potencial benefícios eleitorais para o presidente.
Um termo de cooperação técnica foi estabelecido entre a Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), com o apoio do Ministério da Cultura. Cassius Rosa, secretário-executivo adjunto do Ministério, enfatizou a importância estratégica deste investimento. ‘Estamos dando continuidade ao apoio do governo brasileiro ao Carnaval do Rio de Janeiro, reconhecendo sua relevância como uma vitrine do país’, declarou.
Marcelo Freixo, presidente da Embratur, acrescentou que o investimento no Carnaval também se traduz em promoção internacional. ‘O Carnaval do Rio é uma vitrine global do Brasil. Fortalecer essa festa é fundamental para impulsionar o turismo e sustentar a cadeia econômica que gera empregos e renda’.
O Impacto Econômico do Carnaval
Os dados relacionados ao Carnaval evidenciam sua magnitude econômica: visitantes estrangeiros representam 12% do público, vindo de mais de 160 países, com a Argentina liderando a presença (28,7%), seguida pelos Estados Unidos (9%). Em 2025, os gastos com hospedagem, alimentação e lazer durante o Carnaval movimentaram R$ 8,8 bilhões no estado do Rio. Estima-se que o evento tenha um impacto econômico superior a R$ 6 bilhões.

