O Encontro do Frevo com o Carnaval Carioca
Os Guerreiros do Passo, icônicos representantes do frevo, desembarcam no Rio de Janeiro após sua participação marcante na estreia do filme ‘O agente secreto’ no Festival de Cannes, na França. O grupo, que possui uma trajetória de 20 anos, se apresenta pela primeira vez no CasaBloco, festival que ocorre no Jockey Club. O evento promete unir o melhor da cultura pernambucana com a efervescência do carnaval carioca.
Comandados pelo diretor e fundador Eduardo Araújo, os Guerreiros do Passo trazem à cena uma interpretação única do frevo, uma dança que, segundo ele, tem suas origens em práticas populares que buscavam disfarçar os movimentos da capoeira. “Muitas vezes, os capoeiristas tentavam disfarçar para que não fosse percebido como capoeira pelas autoridades, e assim a dança se transformou em uma manifestação carnavalesca”, explica Araújo, que destaca a importância do frevo como um evento comunitário, um encontro de pessoas durante as festividades.
Cultura e História do Frevo
O grupo promete apresentar uma visão menos conhecida do frevo, que vai além de sua estética vibrante. Araújo ressalta que, “embora o frevo seja reconhecido por sua beleza plástica e seus passos ágeis, também traz uma rica historicidade, refletindo como se desenvolveu na cultura popular e os elementos que se uniram para formar essa identidade pernambucana”. Com uma proposta que envolve dança, aula e teatro, a apresentação incluirá a participação do maestro Spok e sua orquestra, que também tocará no festival.
Os Guerreiros do Passo são compostos por oito dançarinos experientes, com idades entre 40 e 50 anos, todos professores e discípulos de Nascimento do Passo, um mestre reconhecido na arte do frevo. Lucélia Albuquerque, passista e professora do grupo, enfatiza que o trabalho deles se distancia da padronização que o frevo sofreu ao longo dos anos. “Nossos figurinos remetem ao povo nas ruas, à essência das agremiações e orquestras que costumavam se apresentar nos centros urbanos”, afirma Lucélia.
Passos Históricos e a Identidade do Frevo
Entre os passos resgatados pelo grupo estão movimentos como tesoura, ferrolho e dobradiça, todos representativos da rica tradição do frevo. “Buscamos entender como esses passos surgiram na década de 1920”, completa Lucélia. A abordagem dos Guerreiros do Passo tem surpreendido o público, especialmente pela ausência da clássica sombrinha colorida, substituída por guarda-chuvas, que representam a origem do frevo. “Com o passar do tempo, os mestres foram adaptando o guarda-chuva para facilitar os movimentos acrobáticos”, explica Araújo, que acrescenta que as cores vibrantes que conhecemos hoje na sombrinha vieram a partir da década de 1970, quando o arco-íris da bandeira de Pernambuco passou a ser incorporado.
Influências e Interações Culturais
Eduardo Araújo também destaca a rica interação cultural que Recife, como cidade portuária, recebeu ao longo de sua história. “O frevo se desenvolveu em um contexto de influências diversas, desde companhias de dança europeias até o balé russo. Muitos passos do frevo têm relação direta com os cossacos e a capoeira, resultando em uma fusão única de movimentos”, explica o diretor. A parceria com Kleber Mendonça Filho começou quando ele filmou o grupo durante uma apresentação do bloco Escuta Levino e decidiu incluí-los em ‘O agente secreto’. O convite para o festival em Cannes foi uma experiência transformadora, onde o grupo teve a chance de se apresentar em um dos palcos mais prestigiados do mundo.
“Foi uma verdadeira loucura! Muitos dos dançarinos nunca tinham andado de avião, e a emoção de estar em Cannes foi indescritível”, relembra Araújo, que ainda conta que, após a apresentação, o grupo foi recebido pelo presidente Lula no Palácio da Alvorada. “Imaginávamos que teríamos alguma repercussão em Recife, mas a verdade é que só percebemos a grandeza do nosso impacto quando voltamos para o hotel e vimos as notícias nas redes sociais, com milhões de visualizações sobre nossa participação”, acrescenta.
Kleber Mendonça Filho expressa sua admiração pelo trabalho dos Guerreiros do Passo, destacando que, ao longo dos anos, o frevo foi reduzido a uma imagem comercial, muito feliz e colorida. “O que os Guerreiros apresentaram é uma dramatização que evoca as tensões de um Brasil onde manifestações como a capoeira eram reprimidas. Eles trazem à tona um frevo que é visceral e autêntico, muito diferente da versão pasteurizada que costumamos ver”, conclui o diretor.

