O Papel Crucial do Enredo no Carnaval
O termo “enredo” possui uma origem fascinante, relacionada ao verbo “enredar”, ambos com raízes no latim, derivando da palavra ‘rete’, que significa rede. Assim como pescadores entrelaçam suas redes, no carnaval, o enredo deve também tecer uma história que prenda a atenção do público. Essa ideia é explorada pelos especialistas Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato em sua obra atualizada, “Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos” (Mórula Editorial).
Nesta edição, os autores discutem a transformação dos enredos nas escolas de samba do Rio de Janeiro, especialmente a partir da segunda década deste século. Eles abordam como essa tradição, que tem quase 100 anos, evoluiu para se tornar uma forma autêntica de recontar a história brasileira, fazendo com que muitos desses enredos ressoem nas salas de aula e em livros didáticos.
História e Evolução dos Enredos
Durante uma entrevista à Agência Brasil, Simas explicou que os desfiles de escolas de samba começaram a se consolidar em 1932, mesmo que os primeiros concursos de samba tenham ocorrido antes disso. “José Espinguela foi um dos pioneiros, organizando competições, mas não eram desfiles como conhecemos hoje, apenas apresentações de samba”, destacou. Ele ressaltou que a ideia de enredos não foi uma invenção das escolas de samba, mas sim uma adaptação de elementos de cortejos de sociedades carnavalescas, especialmente dos ranchos.
Com a evolução, as escolas de samba começaram a desenvolver um estilo próprio, unificando o enredo e a música. Fábio Fabato comenta que a Portela, em 1939, foi a primeira a criar um desfile com um tema central forte, integrando enredo e samba, estabelecendo um novo padrão para o carnaval. Este formato de samba-enredo, que é uma música criada especificamente para contar uma história, transformou-se em um componente essencial dos desfiles.
Enredo: A Espinha Dorsal do Desfile
Na visão dos autores, o enredo é comparado a um esqueleto, enquanto o samba-enredo representa os músculos que dão vida ao desfile. Fabato menciona que a escolha do enredo pode ser influenciada por fatores como patrocínios e a força do carnavalesco envolvido. “Um enredo bem escolhido pode fazer a diferença no desfile, encantando a comunidade e contribuindo para uma apresentação mais coesa”, comenta.
O papel do enredista também é crucial nesse processo, trazendo um olhar de pesquisa e criação que enriquece a narrativa do desfile. As escolas de samba costumam decidir os enredos entre abril e maio, levando em consideração as ideias do carnavalesco, do presidente da escola e do enredista.
O Enredo como Ferramenta Pedagógica
Além de ser uma forma de entretenimento, os enredos das escolas de samba têm um papel educacional significativo. Simas afirma que eles abordam histórias que muitas vezes não são tratadas nas escolas formais. “As escolas de samba têm um papel pedagógico, oferecendo uma contranarrativa à história oficial”, afirma, citando exemplos emblemáticos como o Salgueiro ao contar a história de Zumbi dos Palmares, ou a Viradouro com Teresa de Benguela.
Portanto, cada desfile é uma oportunidade de aprendizado, onde a história se mistura com a arte, através da música, dança e várias formas de expressão artística. Para os autores, o enredo é uma invenção brasileira, uma maneira única de celebrar e recontar as histórias que fazem parte da identidade do país.
Reflexões Finais sobre o Enredo no Carnaval
Simas e Fabato concordam que um bom enredo é fundamental para o sucesso de um desfile, influenciando todos os aspectos da apresentação. “Um enredo sólido pode levar a composições de samba mais ricas, resultando em um desfile que encanta e emociona”, conclui Simas.
Com isso, o Carnaval se reafirma não apenas como uma festa popular, mas também como um espaço de educação e reflexão, onde a cultura e a história se entrelaçam de maneira vibrante e criativa.

